A série de Jack Kirby e Steve Gerber que ofendeu a Marvel, John Byrne e Jim Shooter
Imagine uma série em quadrinhos independente criada por dois dos maiores nomes dos quadrinhos como uma forma de arrecadar dinheiro para pagar os custos das batalhas judiciais que travavam com sua ex-empregadora, a Marvel Comics. Agora imagine que essa era uma série debochada, que criticava a própria Marvel e alguns de seus funcionários mais dedicados, como o lendário John Byrne. Era a história de um pato contra o mundo (corporativo, ao menos) e sua intenção era, no final das contas, garantir os direitos sobre outro pato. Parece confuso? Calma, que eu explico!
Você já ouviu falar em Howard, o Pato, seja porque esbarrou no personagem em algum gibi da Marvel ou porque assistiu ao filme de 1986 produzido por George Lucas e amado por alguns, odiado por outros.
Quem provavelmente está entre os odiadores do filme é Steve Gerber, que criou o personagem para a editora em 1973 e, com seu humor e observações sobre a sociedade americana, transformou Howard num sucesso tão grande que ele ganhou um título próprio em 1976. O sucesso foi tanto que, em 1980, Gerber (realmente um roteirista de quadrinhos que beirava o genial muitas vezes) processou a Marvel pelos direitos do personagem, alegando que Howard era uma criação sua e a propriedade intelectual deveria ser dele. A Marvel discordou e teve início uma batalha legal. Além, claro, da demissão de Gerber, que escrevia várias séries para a Marvel, como a revista dos Defensores.

Mas batalhas legais são caras, principalmente quando você enfrenta uma grande empresa. Foi aí que Gerber bolou outro pato, o Destroyer Duck, que vive originalmente em uma dimensão de animais antropomórficos, mas acaba transportado a um mundo habitado por humanos para vingar a morte de um amigo seu, o Little Guy (algo como “Zé Ninguém”) pelas mãos da poderosa GODcorp, uma enorme empresa que tem como maior preocupação ganhar montanhas de dinheiro e explorar seus funcionários. Entre os executivos mais dedicados da GODcorp estão seu presidente, Ned Packer (uma sátira pouco disfarçada ao editor-chefe da Marvel à época, Jim Shooter) e um capanga violento e sem espinha chamado Cogburn (uma crítica nada disfarçada ao roteirista e desenhista John Byrne, que escreveu um artigo criticando a intenção de Gerber em conseguir os direitos sobre Howard, já que, segundo ele, Gerber teria sido contratado e pago pela Marvel para criar o personagem, então não tinha direitos sobre ele. No texto, publicado numa edição da revista Comics Scene, Byrne se dizia orgulhoso em ser “um funcionário da empresa, uma engrenagem dentro da Marvel”. Por isso, o nome do vilão, Cogburn (cog, “engrenagem” em inglês, e burn, que tem a mesma pronúncia que Byrne).

A intenção era fazer apenas uma edição especial, lançada pela Eclipse Comics, com a origem de Destroyer Duck e a história de sua luta contra a GODcorp. Para tanto, Gerber convidou, para ser o desenhista, o astro Jack Kirby, que a essa altura já começara a trabalhar para a televisão no desenvolvimento de animações, e tinha também uma ação contra a Marvel para a devolução das milhares de páginas que produziu para a editora desde os anos 1950. Gerber ficou receoso em convidar o lendário Kirby e ficou surpreso quando o velho desenhista disse, “Vamos nessa. Vai ser divertido”. Era a oportunidade de Kirby dar uma cutucada na editora com quem tinha desavenças há tempos.
A história ganhou em qualidade com a energia e o traço de Kirby. DD, o herói, até lembrava o próprio desenhista: baixinho, invocado, veterano de guerra e do tipo que não levava desaforo pra casa em sua luta contra a GODcorp – embora, a bem da verdade, o bico do pato desenhado por Kirby tenha sido considerado estranho por todos os envolvidos, incluindo o próprio artista. Para resolver a questão, outro desenhista. Steve Leialoha, se encarregou de retocar o bico do herói em todas as páginas, o que rendeu a ele o título de “consultor de bico” nos créditos.

A edição foi um sucesso de vendas, o que levou a Eclipse a convidar os envolvidos a transformar Destroyer Duck em uma série regular. Com outros trabalhos ocupando seu tempo (Kirby para a TV, Gerber para a DC), a dupla concordou com uma série bimestral mas, infelizmente, ainda assim houve diversos atrasos. Kirby e Gerber continuaram na série apenas até a quinta edição, quando foram substituídos por outra equipe por mais duas edições. Mas a partir daí as vendas não foram o esperado e a Eclipse cancelou o título.
A TwoMorrows Publishing, especializada em revistas e livros sobre quadrinhos – e à carreira de Kirby – lançou em 2023 uma edição especial, em preto e branco, com as artes a lápis de Kirby para a série, além de análises, curiosidades e artigos sobre a importância de Destroyer Duck para a época e para a luta pelo direitos dos artistas.
Destroyer Duck marcou época como uma série bem-humorada, cheia de cenas de ação exageradas e malucas e, principalmente, um marco para a luta pelos direitos dos artistas, uma crítica aos padrões que a indústria dos quadrinhos usava e, em grande parte ainda usa. Gerber, no final das contas, perdeu o processo e Kirby ainda demoraria anos a conseguir reaver uma parte pequena de suas páginas desenhadas. Se a prática da Marvel em considerar sua propriedade tudo criado sob contrato está certa ou errada é uma discussão para outra hora, mas a série é uma obra merece ser conhecida por fãs sérios de quadrinhos – e a edição da Twomorrows talvez seja a versão ideal para os fãs de Jack Kirby. Gibizão.


