Um quadrinho de super-herói... de terror... ou ambos?

Um quadrinho de super-herói… de terror… ou ambos?

É fácil, nos dias de hoje, ser cético com relação aos quadrinhos Marvel e DC. As duas editoras, que já foram o padrão de qualidade no que se refere aos gibis americanos e fizeram a alegria de tantos leitores ao longas das décadas – diabos, elas foram a porta de entrada de muitos até para a literatura convencional -, atualmente parecem ter perdido a fórmula de como contar de modo competente histórias do bem contra o mal, histórias que continuem respeitando seus personagens e, mais importante, histórias que emocionem seu público.

Por isso não deixa de ser uma ótima surpresa encontrar um título criado nos últimos dez anos que se mostre interessante e inteligente, com bom roteiro e uma arte impressionante. A série The Immortal Hulk é tudo isso.

Hulk contra o Mal

Considerado como morto há algum tempo, o Dr. Robert Bruce Banner se vê numa situação em que já esteve antes: a de foragido da justiça e do mundo. O genial cientista é obrigado a roubar ou mendigar para comer, pegar roupas de varais alheios para se vestir e tentar passar despercebido em qualquer ambiente em que se encontre. Ele também tenta não se envolver em problemas ou situações de risco para evitar de se transfomar em seu poderoso e incontrolável alter ego, o temido Hulk, uma criatura verde e monstruosa, dona de uma força física avassaladora. Tudo isso já vimos antes nos quadrinhos do personagem desde que foi criado em 1962 por Jack Kirby e Stan Lee. Mas este é um Hulk diferente.

O primeiro encadernado da série (que reúne as cinco edições iniciais) começa com um assalto mal-sucedido que deixa como vítimas fatais uma menina de 12 anos e um homem não-identificado que se revela o Dr. Banner. Embora tenha levado um tiro e morrido, quando chega a noite, Banner se transforma no Hulk e simplesmente volta à vida. É daí que vem o título. Na concepção do roteirista inglês Al Ewing, é impossível matar o Hulk. O poder da criatura é tal, que não apenas ele não pode morrer, como Banner também se beneficia dessa faceta: mesmo se o corpo do cientista morre, quando anoitece seu cadáver ainda se transforma no Hulk e, quando o monstro cede o lugar ao cientista novamente mais tarde, este continua vivendo como se nada tivesse acontecido a suas funções vitais.

O conceito de Banner se transformar no monstro verde quando anoitece já era usado nas aventuras iniciais do personagem, que foram inspiradas pelo livro O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Mas, aqui, o anoitecer ajuda a dar uma nova faceta à HQ. The Immortal Hulk é mais um gibi de terror que de super-heróis. O Hulk é atraído de modo quase sobrenatural para criminosos ou perpetradores do mal e cai sobre eles como a vingança divina, geralmente com resultados extremamente violentos. O fator sobrenatural fica ainda mais expressivo ao final do volume, quando o herói (se podemos chamá-lo dessa maneira aqui) enfrenta um inimigo de origem chocante.

Tudo funciona bem, com momentos impressionantes e tensos. Para coroar de vez a obra, temos a arte fantástica do brasileiro Joe Bennett. O artista apresenta o Hulk de modo nunca visto antes, não como um homem de altura descomunal e cheio de músculos, como quase sempre foi mostrado ao longo das décadas, mas como um verdadeiro monstro, enorme e horrendo, com uma face assustadora e um sorriso que transita do maligno ao sarcástico de maneira sempre incômoda de ver. O desenho retrata de maneira excepcional tanto os momentos assustadores quando as cenas de ação. As expressões faciais criadas pelo artista são impressionantes, com uma atenção a detalhes que não esquece nem os figurantes em cena. Com tanta qualidade e capas de Alex Ross, não é por acaso que The Immortal Hulk se transformou num sucesso de vendas durante seu lançamento, batendo até as revistas do Batman.

Há, claro, algumas concessões à chamada modernidade. Aqui, Banner e o Hulk são perseguidos pela jornalista Jackie McGee, personagem obviamente baseada no repórter interpretado por Jack Colvin no seriado dos anos 1970 – mas, claro, com seu sexo e etnia mudados, para seguir os ditames de DEI (diversidade, equidade e inclusão). Mas são poucas essas concessões , ao menos no primeiro volume.

É pena que o final da série, após 50 edições, ficou maculado por algumas idiotices administrativas da Marvel e um comportamento vergonhoso e desprezível de Ewing nos bastidores. Mas, se separarmos a obra e o criador, The Immortal Hulk se mostra um dos melhores gibis de super-heróis em muito tempo, ao menos neste primeiro volume.

The Immortal Hulk: Volume One – Or Is He Both? (2018, Marvel Comics)
Autores: Al Ewing e Joe Bennett
136 páginas

Nota: 9 nerds (de 10) 😎😎😎😎😎😎😎😎😎
Indicado para: Fãs de super-heróis, fãs de quadrinhos de terror


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